Bowing

Nova Criação

São Teotónio - Odemira
12 A 14 NOV
Madalena Victorino, André Duarte e convidados    •    Dança, música, vídeo e palavra    •    Portugal

Bowing

Chegámos ao Oriente Alentejano. Estas palavras são o tapete de entrada para vislumbres da Índia, Nepal, Bangladesh e outras culturas asiáticas que habitam as ruas de São Teotónio. O BOWING é um presente em forma de espectáculo, que vos oferecemos para praticar uma economia em que acreditamos, recebendo o público através da dança, da música, da palavra e da imagem. Aqui mapeamos a travessia pelos continentes da Hospitalidade, da Gravidade e da Incompreensão, percorridos pelos nossos passos, onde tentamos um verdadeiro encontro entre povos. Bem-vindos ao Oriente que respira por estas ruas.

MEDITATION CENTRE
Meet, um rapaz indiano de 15 anos que vive com a sua irmã Maitri em Almograve, ambos de Gujrat, explica que há três ingredientes essenciais para a meditação: foco, paz e prática. Deixamos que estas instruções ocupem os corpos, na dança, no trabalho, na meditação conjunta que é marcada pelas sete baladas do sino da igreja de São Teotónio. Os gestos invocam mudras indianos, rezas portuguesas e todos os símbolos misteriosos entre os dois, que tanto nos afastam como aproximam. Ressoando as palavras do filósofo João Maria André, que pairam também por esta vila, pedimos aos deuses que corra bem o encontro, onde “todos somos estrangeiros, símbolos uns dos outros, de todos e de ninguém”.

CURRY KINGDOM
Mandeep é uma mulher da religião Sikh, que partiu do Punjab e chegou a Boavista dos Pinheiros. Sathyia, do Sul da Índia, vive com a filha e com o marido em Odemira e cozinha pratos da sua região todas as quartas-feiras, em São Luís do Alentejo. Sathiya e Mandeep oferecem as suas culturas através da comida, neste Curry Kingdom que é um parque de estacionamento convertido em banquete, onde se abrem passagens através de muros, pelos sabores e pela dança, para um lugar onde “não partiram o mundo em fragmentos”, como escreveu o poeta indiano Rabindranath Tagore.

CONFRONTATION BALCONY
Rajendra fala Hindi, Nepalês, Inglês e Português, fazendo a ponte entre as culturas de São Teotónio pela tradução, um acto de hospitalidade. Quando traduz, Rajendra capta os olhares fascinados com o seu magnetismo. Aqui, em Hindi, oferece a voz ao que tantos dos 13 mil migrantes desta região vivem diariamente, reclamando o direito a outras formas de convivência.

Venham, aproximem-se.
Oiçam,
Tenho coisas importantes para vos dizer.
Esta é a nova história.
Atithi Devo Bhava.

FAMILY VICTORIES
Uma colecção de retratos das novas famílias alentejanas, que nos recebem nos seus campos, reescrevendo a história destas planícies, destes sobreiros e montes. Muitos dos que chegam do Oriente vêm sozinhos, mas as famílias que aqui vemos conseguiram manter-se juntas na sua travessia pelo mundo. Todos partem por uma razão e todos chegam com um objectivo, um desejo de futuro.

HOSPITALITY SQUARE
Max trabalha numa empresa de plantação de flores em Boavista dos Pinheiros, e na parede da sua cozinha estão afixados recortes de papel que despertam a curiosidade pelo mundo. É Max que introduz, em nepalês, as palavras e a dança que se seguirão:

Aqui está um mapa onde o Oriente e o Ocidente se juntam. Esta é uma história muito antiga. Podem não compreender as palavras, mas vão compreender a dança.

Laxmi, uma rapariga nepalesa de Uralabari, aluna em Odemira, escreve num poema que “todos vivemos debaixo do mesmo céu”. Unindo as suas palavras às do irlandês Richard Kearney, filósofo da Hospitalidade, desenhamos uma grande flor no chão de uma praça, entre a bússola ocidental e a mandala oriental, que nos dará instruções para atravessar o estrangeiro: lugar de deuses, monstros e estranhos que também nos habitam.

Os deuses cozinham o jantar, os deuses bebem nas esquinas, os deuses vestem luvas e arrancam ervas daninhas, os deuses preparam a terra, os deuses cultivam flores, os deuses percorrem estufas e adormecem nos contentores, os deuses procuram o seu lugar, os deuses querem ser vacinados, os deuses nunca tinham visto o mar, os deuses encontram aliados, os deuses têm número de saúde, os deuses preenchem formulários, os deuses têm dores de costas e trabalham pelos salários.

GATE
É uma porta de entrada em forma de dança. Um solo atravessado pelo Oriente e Ocidente no corpo de uma bailarina, nascido no topo de um altar que outrora foi o poço onde nascia a água da aldeia. O som anuncia a passagem líquida para outro espaço, o Jardim da Elsa, uma menina de São Teotónio que fugiu da vida e deixou uma floresta com o seu nome, à qual também quisemos chamar Floresta da Incompreensão. 

FOREST
Mestres que são crianças vão trazer aos ouvidos e às mãos do público palavras nas línguas indecifráveis dos seus países. Através do cinema, estes territórios longínquos irão deitar-se nas mesas de merendas para que se visitem as paisagens e atmosferas das cidades do Oriente. Quando as imagens entram na pele surgem corpos vivos da dança que nos oferecem a beleza da incompreensão.  Na floresta há cruzamentos sombrios e desconhecidos, clareiras abertas pela música e espaços femininos de penumbra com danças que se enrolam pelos pinheiros-bravos como jibóias. A Ásia instala-se em paredes de taipa que formam o nosso novo templo, rodeado pelos sonhos de princesas sem nome e pela dança de duas irmãs que se movem sobre a memória.

LAST STOP
No terreiro de São Teotónio onde os animais são mostrados para serem vendidos, entramos na parte final do BOWING, uma zona de gravidade e aceleração. Chamamos para os nossos corpos os movimentos do trabalho, do jogo, do cansaço imenso e das deslocações que inscrevem esta vila no mapa das grandes mudanças globais. São Teotónio é parte do mundo e transforma-se com ele. As migrações, as estufas, os estranhos. O trabalho que mata, o trabalho que salva, a alegria, o desespero, as brincadeiras de crianças, as danças magnéticas entre homens e mulheres, presentes em todo o mundo, em todos os corpos, pelas repetições de tarefas infinitas que tanto carregam a salvação como podem levar à morte.

AGRADECIMENTOS
Agradecimento muito especial a todos os artistas, escritores e filósofos que nos acompanham neste BOWING e que nos alimentam com a sua arte, o seu pensamento. Usámos o mecanismo da citação para incluir e visitar excertos de obras já realizadas e apresentadas, que se atravessam neste trabalho para que não nos sintamos sós. Estamos acompanhados pelo pensamento e pela criação dos outros, tornando-a nossa também. Isso é, para nós, um dos sentidos de comunidade.
Obrigado a Richard Kearney, filósofo irlandês, Nainsukh, pintor indiano, Jacques Derrida, filósofo francês, João Maria André, filósofo português, Alexandra Lucas Coelho, escritora e jornalista portuguesa, Viasa, autor indiano, Hofesh Schechtner, coreógrafo israelita, Manaku de Guler, pintor indiano, Bill Viola, videoartista norte-americano, Juan Vicente Piqueras, poeta espanhol, Amit Dutta, videasta indiano, Henri Cartier-Bresson, cineasta francês, Kate Tempest, poeta inglesa, Simone Weill, filósofa francesa, Rabindranath Tagore, poeta indiano, Steve Paxton, coreógrafo norte-americano e Satyajit Ray, realizador indiano.

Ficha artística

Madalena Victorino e André Duarte  Criação de

Aayush KC, Abdul Hoqe, Abhijot Singh, Abhinandan Dahal, Adriana Matos, Amrita Budha, Apekshya Lohani, Arshpreet Kaur, Belov Thapa, Bipasha Islam, Daniel Wang, Groukal Kumar, Gursjas Singh, Gursanjpreet Kaur, Harmandeep Singh, Isabela Aleixo, Ivan Lohani, Jagjeet Gill, Jasmeen Kaur, Kulwinder Singh, Lara Godinho, Laxmi Khadka, Maitri Patel, Mamata BK, Mandeep Kaur, Meet Patel, Milan Magar, Muhammed Abu Bokor, Naima Nabin, Nedzhlya Georgieva, Nurul Amin, Onkar Singh, Pedro Simões, Saifur Rahman, Saima Nabin, Saimon Kandel. Sathiya Krishnamurti, Shamem Ahmad, Shamin Ahmed, Siraj Uddin, Sneha Malla, Syed Ohidur Rahman, Sushant Adhikari, Rani Pathak, Tanchhoma Limbu  Co-criação

Matilde Real palavra, Inês Melo dança e Pavel Tavares vídeo Equipa Nuclear BOWING

Natalia Lis, Thais Julia  dança, Marc Plannels, Márcio Pinto, Pedro Salvador, Pramin Ghatani, Rajendra Shiwakoti, Rémi Gallet, Vitória Faria música, Elka Victorino assistência coreográfica, Bárbara Sousa e Francisca Poças, Andreia Coelho, Catarina Bertrand, João Parreira, Manuel Ruiz participação especial e Joaquim Madaíl desenho de Luz e direcção técnica Artistas Convidados

BOWING vem do inglês e refere-se ao verbo to bow, inclinar-se. Nas culturas orientais, quando se cumprimentam, as pessoas unem as mãos junto ao peito e inclinam-se perante o outro como sinal de respeito e saudação. No mundo agrícola, aquele que trabalha a terra inclina-se sobre ela, por vezes ao longo de uma vida inteira, para a tocar e fertilizar. Na dança, é esta curva a que Doris Humphrey se refere quando fala do arco entre o salto e a queda, a nossa resposta à gravidade. É na junção de movimentos de dança, de trabalho e de respeito humano que este projecto artístico se constrói.

São Teotónio - Odemira
Quintalão (em frente à igreja)
12 · 13 · 14 NOV – 19H00

Classificação etária  M/6+

Entrada gratuita